O tratamento da obesidade está passando por uma transformação importante. Nos últimos anos, medicamentos que atuam sobre mecanismos relacionados à fome, à saciedade e ao metabolismo passaram a fazer parte da prática clínica e ampliaram as possibilidades de tratamento.
Ao mesmo tempo, novos medicamentos estão sendo estudados e resultados de pesquisas têm chamado atenção. É o caso da retatrutida, uma molécula experimental que atua simultaneamente nos receptores de GLP-1, GIP e glucagon.
Os avanços são relevantes, mas é importante diferenciar aquilo que já foi aprovado e está disponível para pacientes daquilo que ainda está em fase de pesquisa. Um resultado promissor em um estudo clínico não significa que o medicamento já possa ser utilizado de forma regular.
Retatrutida: o que já sabemos?
A retatrutida é um medicamento investigacional desenvolvido pela Eli Lilly e ainda não possui aprovação para comercialização.
Nos resultados do estudo de fase 3 TRIUMPH-4, divulgados pela empresa, participantes com obesidade e osteoartrite de joelho que receberam a dose de 12 mg apresentaram perda média de 28,7% do peso corporal após 68 semanas. O estudo também identificou melhora importante na dor relacionada à osteoartrite e em fatores de risco cardiovascular, como colesterol, triglicerídeos e pressão arterial.
Esses resultados ajudam a explicar o interesse científico pela molécula. Entretanto, a própria situação regulatória precisa ser considerada: a retatrutida continua em desenvolvimento clínico e ainda não está aprovada para uso comercial. A Anvisa esclareceu em julho de 2026 que ela não havia sido aprovada por nenhuma agência reguladora e que a empresa ainda não havia solicitado seu registro.
Portanto, retatrutida não é uma nova caneta disponível para compra. É uma terapia que continua sendo estudada.
E os medicamentos em comprimido?
Em abril de 2026, a FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, aprovou o orforglipron, comercializado como Foundayo, um agonista oral de GLP-1 indicado para adultos com obesidade ou sobrepeso associado a pelo menos uma condição relacionada ao peso. O medicamento é administrado uma vez ao dia e pode ser tomado sem restrições específicas relacionadas a alimentos ou água.
Isso representa um avanço importante na diversificação das opções terapêuticas para a obesidade.
Mas existe uma diferença fundamental entre “foi aprovado em outro país” e “está disponível no Brasil”.
A aprovação pela FDA não significa que o medicamento esteja automaticamente registrado ou autorizado para comercialização pela Anvisa. Cada país possui seu próprio processo regulatório para avaliar qualidade, segurança, eficácia e condições de uso.
O que já está disponível no Brasil?
O Brasil já possui medicamentos registrados para o tratamento da obesidade, como a semaglutida e a tirzepatida, cada um com suas indicações e condições de uso aprovadas pela Anvisa.
O Wegovy, por exemplo, é registrado para controle do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso associado a determinadas comorbidades, em conjunto com dieta hipocalórica e atividade física.
A tirzepatida também possui indicação aprovada no Brasil para controle crônico do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso associado a condições relacionadas ao peso.
Além disso, o cenário brasileiro continua mudando. Em 2026, a Anvisa aprovou novas apresentações e atualizações relacionadas a medicamentos dessa classe, como a nova posologia do Wegovy e do Poviztra.
Por isso, quando surge uma notícia sobre uma “nova caneta”, é importante verificar qual medicamento é, onde foi aprovado e se possui registro no Brasil.
Produto novo não significa produto aprovado
A Anvisa tem intensificado a fiscalização de produtos irregulares. Em abril de 2026, uma operação conjunta com a Polícia Federal identificou produtos e insumos relacionados a medicamentos para obesidade comercializados de forma irregular, incluindo a retatrutida, que ainda não possuía registro por nenhuma agência reguladora.
Também foram proibidos produtos vendidos pela internet como canetas de GLP-1 que não possuíam registro, notificação ou cadastro na Anvisa. Nesses casos, a Agência alerta que não há garantia sobre a origem, composição ou qualidade do produto.
Por isso, comprar medicamentos para emagrecimento pela internet, especialmente produtos sem registro ou de origem desconhecida, pode representar um risco à saúde.
O que esperar dos próximos anos?
A evolução dos tratamentos para obesidade deve continuar trazendo novas moléculas, diferentes formas de administração e estratégias cada vez mais específicas.
A própria Organização Mundial da Saúde publicou, em dezembro de 2025, sua primeira diretriz global sobre terapias GLP-1 para obesidade. A recomendação reconhece esses medicamentos como uma possibilidade de tratamento de longo prazo para adultos com obesidade, mas reforça que eles devem fazer parte de um cuidado abrangente, que também inclua alimentação adequada, atividade física e acompanhamento profissional.
O cenário está mudando rapidamente. Para o paciente, informação e acompanhamento médico continuam sendo fundamentais para tomar decisões seguras e individualizadas.


